Cetesb registra queda da matéria orgânica transportada pelo rio, enquanto estudos apontam que contaminação por esgoto, microplásticos e outros poluentes permanece.
A carga média de matéria orgânica transportada pelo rio Tietê depois de atravessar a região mais urbanizada da Grande São Paulo caiu 26,7% entre 2025 e 2026, segundo estudo da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) divulgado nesta quinta-feira, 17 de setembro. As medições realizadas na região da barragem da Pequena Central Hidrelétrica Edgard de Souza, em Santana de Parnaíba, indicam que o volume passou de aproximadamente 210 toneladas por dia em 2025 para 154 toneladas diárias em 2026.
A redução é relevante porque a matéria orgânica funciona como um dos indicadores da pressão exercida principalmente pelo esgoto sobre o rio. O resultado, porém, não significa que o Tietê esteja despoluído nem que suas águas tenham recuperado condições adequadas em toda a bacia. Pesquisas recentes encontraram microplásticos, agrotóxicos, fármacos e outros contaminantes ao longo do curso do rio, enquanto indicadores de qualidade da água continuam mostrando problemas importantes. O novo dado da Cetesb revela, portanto, uma melhora mensurável em um indicador específico, mas também levanta uma questão essencial: até que ponto a redução da carga orgânica representa uma recuperação efetiva do principal rio paulista?
O que significa a queda de 26,7% registrada pela Cetesb?
A comparação divulgada pela Cetesb acompanha a quantidade de matéria orgânica transportada pelo Tietê em um ponto estratégico localizado depois de o rio atravessar a área densamente urbanizada da Região Metropolitana de São Paulo. A média estimada passou de 210 toneladas por dia em 2025 para 154 toneladas em 2026, diferença de aproximadamente 56 toneladas diárias. A redução percentual chega a 26,7%.
A escolha da região da barragem Edgard de Souza, em Santana de Parnaíba, permite observar o resultado acumulado das pressões ambientais sofridas pelo rio durante sua passagem pela metrópole. A Grande São Paulo concentra milhões de habitantes, atividades industriais, vias urbanas e uma enorme rede de córregos e afluentes que desembocam no Tietê. Por isso, alterações registradas nesse ponto podem ajudar a avaliar a evolução da carga poluidora proveniente da região metropolitana.
Segundo informações divulgadas junto ao levantamento, o governo paulista relaciona parte da melhoria a investimentos em saneamento e às iniciativas do programa Integra Tietê. Entre as ações estão expansão de infraestrutura de coleta e tratamento de esgoto, retirada de resíduos e sedimentos e intervenções nas sub-bacias que alimentam o rio. Desde 2023, mais de 6,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos teriam sido removidos dentro das ações associadas ao programa, além da retirada de aproximadamente 147 mil toneladas de lixo flutuante no rio Pinheiros.
A queda da carga orgânica é particularmente importante porque grandes concentrações desse material podem reduzir a quantidade de oxigênio dissolvido disponível na água. Durante a decomposição, microrganismos consomem oxigênio, prejudicando as condições necessárias para a manutenção da vida aquática. Diminuir o lançamento de esgoto e de outros resíduos orgânicos é, portanto, uma etapa fundamental para recuperar um curso d’água.
O problema é que esse indicador não representa sozinho toda a qualidade ambiental do Tietê. Um rio pode apresentar redução da matéria orgânica e continuar sofrendo com contaminantes químicos, resíduos sólidos, microplásticos, agrotóxicos e outras substâncias. É justamente essa diferença que impede interpretar os novos números como sinal de que o processo de despoluição já esteja concluído.
Por que a melhora não significa que o Tietê esteja recuperado?
Um levantamento divulgado em junho de 2026 pela Fundação SOS Mata Atlântica ajuda a mostrar a complexidade do problema. A Expedição Tietê percorreu mais de 1.100 quilômetros, desde a nascente em Salesópolis até a foz no rio Paraná, em Itapura, analisando 14 pontos em diferentes regiões do estado. Os pesquisadores identificaram microplásticos em todos os pontos examinados, além de 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias classificadas entre fármacos e drogas ilícitas.
O levantamento também encontrou níveis críticos de contaminação microbiológica principalmente nos trechos urbanos da Região Metropolitana de São Paulo. As análises envolveram parâmetros microbiológicos, físico-químicos e biogeoquímicos, além da busca por contaminantes emergentes. A conclusão apresentada pela organização é que não havia, nos pontos avaliados, segmentos completamente livres de contaminação.
Esses resultados não contradizem necessariamente a redução de 26,7% anunciada pela Cetesb. Os estudos medem aspectos diferentes do problema e utilizam metodologias e pontos de coleta distintos. A queda da matéria orgânica pode acontecer ao mesmo tempo em que outras formas de contaminação continuam presentes. Por isso, avaliar a recuperação do Tietê exige acompanhar vários indicadores simultaneamente.
Outro levantamento da SOS Mata Atlântica já havia mostrado essa dificuldade. No estudo divulgado em 2025, a chamada mancha de poluição do Tietê caiu de 207 quilômetros em 2024 para 174 quilômetros em 2025, uma redução de 15,9%. Entretanto, apenas um dos pontos analisados naquele levantamento foi classificado como de boa qualidade, enquanto a maioria permaneceu nas categorias regular, ruim ou péssima. Nenhum ponto recebeu classificação ótima.
O histórico também recomenda cautela diante de melhorias registradas em apenas um período. Entre 2016 e 2021, indicadores monitorados pela SOS Mata Atlântica mostraram uma trajetória de recuperação, com a mancha de poluição chegando a 85 quilômetros. A partir de 2022, porém, houve reversão dessa tendência e a extensão voltou a crescer até alcançar 207 quilômetros em 2024. Isso mostra que uma recuperação consistente precisa ser sustentada durante vários anos.
O que ainda precisa acontecer para a recuperação do rio avançar?
A expansão do saneamento continua sendo uma das frentes centrais. Esgoto doméstico sem tratamento adequado permanece entre as principais fontes de degradação dos cursos d’água urbanos. Como grande parte da poluição chega ao Tietê por meio de córregos e afluentes, a recuperação depende não apenas de intervenções diretamente na calha principal, mas também da melhoria ambiental das sub-bacias espalhadas pela Região Metropolitana de São Paulo.
O desafio seguinte é lidar com formas de contaminação que não são resolvidas simplesmente pela retirada de lixo visível ou pelo tratamento convencional do esgoto. Microplásticos, resíduos farmacêuticos e determinados compostos químicos podem exigir técnicas de monitoramento e tratamento mais sofisticadas. A Expedição Tietê encontrou microplásticos em todos os 14 pontos analisados, demonstrando que esse tipo de poluente não está restrito ao trecho metropolitano.
Também existem fontes relacionadas à atividade agropecuária e à ocupação territorial ao longo dos mais de mil quilômetros percorridos pelo rio. O levantamento científico identificou 25 tipos de agrotóxicos e descreveu um gradiente de degradação associado tanto à urbanização quanto às atividades agrícolas. Dessa forma, as soluções necessárias para a Grande São Paulo não são necessariamente as mesmas exigidas em outros trechos da bacia.
O monitoramento contínuo será decisivo para determinar se a queda registrada pela Cetesb representa o início de uma tendência duradoura. Comparar os próximos anos permitirá saber se a redução da carga orgânica continuará e se será acompanhada por melhorias em outros parâmetros, como oxigênio dissolvido, contaminação microbiológica e presença de substâncias químicas.
O resultado divulgado em 17 de setembro é, portanto, um indicador positivo, mas específico. A passagem de 210 para 154 toneladas diárias de matéria orgânica mostra que uma pressão importante sobre o Tietê diminuiu no ponto monitorado da Grande São Paulo. Transformar essa redução em recuperação ambiental consistente dependerá da continuidade das obras de saneamento, do controle das diferentes fontes de poluição e da capacidade de impedir que avanços obtidos em alguns anos sejam revertidos posteriormente.
A situação do Tietê mostra ainda por que a recuperação de um grande rio urbano precisa ser avaliada em horizontes longos. A diminuição da carga orgânica é uma peça importante, mas não encerra o diagnóstico. Enquanto microplásticos, contaminantes químicos, esgoto e outros poluentes continuarem sendo detectados, o desafio permanecerá em transformar melhorias pontuais em uma trajetória contínua de recuperação da qualidade da água.
Fontes:
Folha de S.Paulo — Cetesb registra redução da poluição do Tietê na Grande São Paulo
SOS Mata Atlântica — Expedição encontra contaminação ao longo do rio Tietê
SOS Mata Atlântica — Resultados completos da Expedição Tietê
SOS Mata Atlântica — Monitoramento da qualidade da água pelo Observando os Rios
SOS Mata Atlântica — Histórico da mancha de poluição e qualidade do Tietê