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Tecnologia

Brasil acelera data centers de IA, mas gargalo de energia ameaça expansão do setor

Marcus Bramdale
Marcus Bramdale 17/09/2026
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13 Min de leitura
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Redata reduz custos para novos projetos, enquanto crescimento da inteligência artificial aumenta pressão sobre energia, transmissão, conectividade e refrigeração.

Contents
Por que a inteligência artificial está aumentando tanto a demanda por energia?O que o Redata muda para os novos data centers no Brasil?Energia pode definir o novo mapa dos data centers brasileirosFontes:

O Brasil entrou em uma nova fase da corrida por infraestrutura para inteligência artificial. A sanção do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), ocorrida em setembro, criou incentivos fiscais destinados à instalação, modernização e expansão de centros de processamento de dados no país. A expectativa do governo e do setor é que a medida reduza custos de equipamentos e torne o mercado brasileiro mais competitivo na disputa internacional por investimentos em computação de alto desempenho, nuvem e IA.

O incentivo chega em um momento de forte crescimento. O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 706 megawatts de capacidade instalada em data centers, segundo levantamento da JLL citado pela Exame. Outros 134 MW são esperados até o final do ano, depois de 106 MW entregues apenas nos primeiros seis meses. Os investimentos associados às entregas previstas para 2026 são estimados em aproximadamente US$ 8 bilhões.

Mas a expansão física dos centros de dados está esbarrando em uma questão que não pode ser resolvida apenas com incentivos tributários: energia elétrica. Data centers de inteligência artificial exigem enormes quantidades de eletricidade, além de infraestrutura de transmissão, sistemas avançados de refrigeração e conexões de fibra óptica de alta capacidade. Especialistas do setor alertam que a disponibilidade dessa infraestrutura pode determinar onde e em qual velocidade os novos projetos conseguirão sair do papel.

O paradoxo brasileiro está justamente aí. O país possui uma matriz elétrica com participação relevante de fontes renováveis e condições consideradas competitivas para receber novos empreendimentos, mas precisa ampliar redes e capacidade de transmissão para conectar projetos de grande escala. A corrida brasileira pelos data centers, portanto, deixa de ser apenas uma disputa por investimentos tecnológicos e passa a envolver diretamente o planejamento do sistema elétrico.

Por que a inteligência artificial está aumentando tanto a demanda por energia?

Os data centers são instalações que concentram servidores, equipamentos de armazenamento e sistemas de comunicação responsáveis por manter serviços digitais funcionando. Aplicações tradicionais de internet já exigem grandes estruturas desse tipo, mas o avanço da inteligência artificial aumentou significativamente a necessidade de capacidade computacional.

Treinar e executar grandes modelos de IA exige milhares de processadores trabalhando simultaneamente. Chips especializados, como GPUs e outros aceleradores, realizam enormes quantidades de cálculos e consomem energia continuamente. Além disso, praticamente toda a eletricidade utilizada pelos equipamentos acaba sendo transformada em calor, o que exige sistemas adicionais de refrigeração.

Esse ciclo faz com que a demanda energética cresça junto com a capacidade computacional. Quanto mais servidores destinados a inteligência artificial são instalados, maior tende a ser a necessidade de energia, refrigeração e infraestrutura de transmissão.

Segundo informações reunidas pela Folha de S.Paulo, estimativas internacionais apontam que o consumo dos data centers pode chegar a aproximadamente 702 terawatts-hora em 2027, com mais da metade dessa demanda relacionada à inteligência artificial. O crescimento está levando governos e empresas de energia de vários países a revisar projeções de consumo elétrico.

No Brasil, o desafio aparece justamente quando uma grande quantidade de projetos começa a procurar conexão com o sistema elétrico. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) informou que existem solicitações que somam aproximadamente 56 GW de acesso à rede relacionadas a novos empreendimentos. Esse número não significa que toda essa capacidade será efetivamente construída: parte dos projetos pode não avançar ou mudar de escala.

Mesmo assim, o volume mostra a dimensão da procura. A implantação de uma linha de transmissão, de uma subestação ou de uma nova estrutura de geração não acontece no mesmo ritmo da instalação de servidores. Projetos elétricos de grande porte exigem planejamento, licenciamento, investimentos e obras que podem levar anos.

É por isso que o gargalo energético começa a ser considerado uma das principais limitações para a expansão dos data centers brasileiros. Uma empresa pode adquirir terreno, importar servidores e construir instalações, mas precisa ter garantia de que haverá energia suficiente disponível para operar continuamente.

A inteligência artificial também adiciona outra exigência: estabilidade. Centros de processamento precisam funcionar praticamente sem interrupções. Uma falha de energia pode afetar serviços digitais utilizados por milhares ou milhões de usuários. Por isso, esses empreendimentos dependem de conexões robustas, redundância e sistemas de emergência.

O que o Redata muda para os novos data centers no Brasil?

O Redata foi criado pela Lei 15.504 e estabelece um regime especial de tributação para empresas que instalarem ou ampliarem data centers no Brasil. Entre os principais benefícios está a suspensão, por cinco anos, de tributos incidentes sobre determinados equipamentos utilizados nessas estruturas.

A legislação contempla Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI, respeitadas as condições previstas na lei. No caso do Imposto de Importação, o benefício está direcionado a produtos sem equivalente nacional.

O objetivo é reduzir um dos custos mais elevados da implantação de centros de processamento. Servidores de alta performance, equipamentos de rede e componentes especializados para inteligência artificial podem representar parcela significativa do investimento inicial.

Em contrapartida, as empresas precisam cumprir uma série de requisitos. Pelo menos 10% da capacidade efetiva de processamento, armazenamento e tratamento de dados deverá ser direcionada ao mercado brasileiro. Essa parcela não poderá simplesmente ser destinada à exportação ou reservada para uso próprio.

Também existe uma obrigação de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos com os benefícios fiscais. A política pretende, dessa forma, evitar que o incentivo seja limitado à importação de equipamentos e estimular a formação de uma cadeia tecnológica brasileira.

As exigências ambientais aparecem como outro elemento central. As empresas participantes deverão cumprir critérios de sustentabilidade e apresentar um Índice de Eficiência Hídrica de até 0,05 litro de água por kWh utilizado no resfriamento dos equipamentos.

A questão energética também foi incorporada às contrapartidas. A legislação estabelece requisitos relacionados ao atendimento da demanda contratada de eletricidade e ao uso das fontes previstas pelo regime. O objetivo é combinar o crescimento da infraestrutura digital com critérios ambientais e energéticos.

Existem ainda incentivos para reduzir a concentração regional. Empresas que instalarem empreendimentos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão cumprir percentuais menores de algumas contrapartidas. Pelo menos 40% dos investimentos destinados a determinados programas de fomento à economia digital deverão ser direcionados a essas regiões.

Essa descentralização pode se tornar particularmente importante porque a infraestrutura brasileira permanece fortemente concentrada no Sudeste. Dados citados pelo Senado apontam pelo menos 160 centros de processamento no Brasil, dos quais 110 estão no Sudeste.

Energia pode definir o novo mapa dos data centers brasileiros

A combinação entre demanda de IA, incentivos tributários e limitações energéticas pode alterar a geografia do setor nos próximos anos. Atualmente, São Paulo permanece como o principal polo brasileiro. Levantamento da JLL indica que o estado concentra aproximadamente 38% da capacidade nacional de data centers.

A concentração não acontece por acaso. Grandes centros urbanos oferecem proximidade com clientes empresariais, redes de telecomunicações, mão de obra especializada e conexões de fibra óptica. Para determinadas aplicações, a distância física também importa porque influencia a chamada latência — o tempo necessário para os dados viajarem entre o usuário e o servidor.

Mas a inteligência artificial está modificando parte dessa lógica. Determinadas cargas computacionais, principalmente treinamento de grandes modelos, não precisam necessariamente ficar próximas dos maiores centros consumidores. Isso abre espaço para que regiões com abundância de energia renovável e disponibilidade de terrenos recebam grandes instalações.

O Brasil possui vantagens importantes nessa disputa. O governo destaca a disponibilidade de energia renovável, infraestrutura de telecomunicações e cabos submarinos internacionais como fatores capazes de tornar o país atraente para investimentos. Ao mesmo tempo, o Ministério da Fazenda estima que aproximadamente 60% das cargas digitais brasileiras ainda estejam processadas ou armazenadas fora do país.

Trazer parte dessa capacidade para o território nacional é um dos objetivos estratégicos do Redata. Além de reduzir dependência externa, o governo espera estimular serviços de nuvem, inteligência artificial, computação de alto desempenho e outras tecnologias associadas à economia digital.

As projeções mostram o tamanho potencial desse mercado. Estudo da Schneider Electric em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços estima que a capacidade instalada brasileira de data centers poderia chegar a 26 GW ou até 45 GW em 2050, dependendo principalmente da expansão da geração e da transmissão de energia renovável.

Esse crescimento, entretanto, está longe de ser automático. Há uma diferença importante entre projetos anunciados, pedidos de conexão elétrica e capacidade realmente instalada. Terrenos precisam ser preparados, equipamentos adquiridos, licenças concedidas e infraestrutura elétrica construída antes que os servidores possam começar a operar.

A conectividade representa outro desafio. Levar grandes data centers para regiões com maior disponibilidade energética exige redes de fibra óptica capazes de transportar enormes volumes de dados com baixa latência e elevada confiabilidade. Em determinadas localidades, ampliar essa infraestrutura poderá ser tão importante quanto construir novas linhas de transmissão.

Também existe o desafio da refrigeração. A concentração de milhares de processadores produz grande quantidade de calor e exige soluções capazes de manter os equipamentos dentro das temperaturas adequadas. Sistemas mais eficientes podem reduzir tanto o consumo elétrico quanto a utilização de água, duas questões que passaram a fazer parte das exigências ambientais do setor.

O Redata resolve uma parte importante da equação ao reduzir o peso tributário sobre equipamentos e estabelecer um marco para novos investimentos. Mas a próxima etapa dependerá de infraestrutura física. Energia disponível, transmissão, fibra óptica e refrigeração determinarão quantos dos projetos anunciados realmente entrarão em operação.

O Brasil possui condições para ampliar sua participação na infraestrutura mundial de inteligência artificial, mas a corrida não será decidida apenas pela quantidade de servidores que empresas pretendem instalar. A capacidade de produzir e entregar eletricidade no lugar e no momento necessários poderá definir o tamanho real da expansão brasileira dos data centers de IA.

Fontes:

  • Folha de S.Paulo — Nova lei impulsiona data centers, mas energia trava expansão no Brasil
  • Ministério da Fazenda — Redata é sancionado e estabelece incentivos e contrapartidas
  • Senado Federal — Lei de incentivo para instalação de data centers é sancionada
  • MDIC — Governo detalha Redata, investimentos e estratégia para infraestrutura digital
  • Exame — Brasil chega a 706 MW de capacidade instalada em data centers em 2026
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