Toda vez que uma empresa anuncia um projeto grande de automação de processos, a mesma pergunta aparece nos bastidores: “quantas pessoas vão sobrar depois que os robôs assumirem essas tarefas?”. Rolando Bonaccorsi, diretor de operações da Vert Analytics, ouve essa pergunta com frequência e considera que ela costuma vir carregada de uma expectativa simplificada demais sobre o que realmente acontece depois que a automação entra em produção.
A crença comum é bastante simplista: a ideia de que automatizar uma tarefa resulta na eliminação da necessidade da pessoa que anteriormente a realizava. No entanto, a realidade operacional, quando analisada a partir da perspectiva de projetos reais de automação, revela-se muito mais complexa do que essa equação básica sugere. A automação não apenas substitui funções, mas também transforma a dinâmica do trabalho, exigindo uma reavaliação das habilidades e papéis dentro da organização. É fundamental entender que, embora algumas tarefas possam ser delegadas a robôs, isso não significa que o trabalho humano se torne obsoleto. Em vez disso, novas oportunidades e responsabilidades emergem, exigindo uma adaptação contínua e um planejamento cuidadoso para garantir que a transição para a automação seja benéfica para todos os envolvidos.
O mito: automatizar significa precisar de menos gente
A lógica por trás do mito parece óbvia à primeira vista: se um robô de software passa a executar uma tarefa que antes exigia um funcionário, aquele funcionário deixa de ser necessário para essa função específica. Multiplicado por dezenas de processos automatizados, o resultado pareceria ser uma redução proporcional de headcount, expressão em inglês que significa o número total de funcionários de uma empresa.
Essa conta ignora um detalhe estrutural sobre o tipo de automação mais comum em operações de TI, dado que os robôs baseados em regras fixas não aprendem sozinhos, não se adaptam a mudanças de processo e param de funcionar corretamente assim que o sistema que automatizam sofre qualquer alteração relevante.
A conta que ninguém faz: quem mantém o robô rodando
Cada automação implementada precisa de manutenção contínua: ajustar o script quando uma interface muda, tratar exceções que o robô não sabe resolver sozinho, monitorar se a execução continua correta ao longo do tempo. Esse trabalho não desaparece, apenas muda de natureza.
Rolando Bonaccorsi indica que as empresas que não planejam essa manutenção contínua desde o início do projeto frequentemente descobrem, meses depois, que precisam recontratar para uma função que juravam ter eliminado, só que agora com um perfil técnico mais específico do que o anterior.
Onde o headcount realmente muda?
A automação bem-sucedida não elimina trabalho, redistribui, pois, como apresenta Rolando Bonaccorsi, as tarefas repetitivas e previsíveis saem das mãos de quem as fazia manualmente e entram tarefas novas de supervisão, tratamento de exceção e melhoria contínua do próprio processo automatizado.
Essa mudança de perfil costuma pegar empresas despreparadas, porque exige requalificação de equipe, não apenas redução de quadro. Profissionais que antes executavam a tarefa manualmente precisam aprender a supervisionar e ajustar o sistema que passou a executá-la, um tipo de trabalho bem diferente do original.
A pergunta certa antes de automatizar
Em vez de perguntar quantas vagas um projeto de automação vai cortar, a pergunta mais útil é outra: que tipo de trabalho vai sobrar depois, e a equipe atual está preparada para esse novo tipo de trabalho, ou vai precisar de requalificação significativa para assumi-lo?
Por fim, como o diretor de operações da Vert Analytics, Rolando Bonaccorsi, considera que empresas que planejam automação com essa pergunta em mente, desde o início do projeto, evitam tanto o susto de recontratar mais tarde quanto a frustração de uma equipe que se sente ameaçada por um projeto que, na prática, muda sua função sem necessariamente eliminá-la.